‘O rap nasceu de uma necessidade de ter voz, ele nasceu de uma luta’, diz Crônica Mendes, que celebra 25 anos de hip-hop

Rapper reflete o papel provocativo do movimento nas periferias de São Paulo, no interior paulista, em Brasília e na Bahia

Nascido no Jardim São Jorge, zona periférica da cidade de Hortolândia, no interior do estado de São Paulo, o rapper Crônica Mendes celebra em 2026 um quarto de século de atuação artística na cena hip-hop nacional.

No programa Conversa Bem Viver, Crônica relembrou sua trajetória, mas ressalta sentir que há muita coisa a se fazer no futuro. “Eu me sinto muito vivo celebrando 25 anos de rap nacional na minha caminhada, muito vivo e sinto também que ainda tem muito o que fazer, aprendi muito, tenho propagado muitas coisas, tenho aprendido demais, e ainda existe muito o que se fazer.”

Para Crônica, o movimento do rap não é só sobre música, mas tem um papel importante em provocar reflexão, principalmente para as pessoas periféricas, considerando seu potencial em suscitar a transformação social. 

‘A gente vive hoje, uma geração que tem vários artistas provocando essa transformação do pensamento para que a gente possa ter um olhar diferenciado para uma luta, para que a gente possa entender, admitir, porque muitos ainda não admitem, que existe sim uma luta de classes no nosso país, né, no mundo como um todo.’, disse Crônica.

O artista alertou ainda para episódios em que políticos em processo eleitoral que tentaram se apropriar de elementos do movimento hip-hop como capital político, o que para ele é um perigo real para este ano onde há eleições no país

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Esse ano você completa 25 anos na cena do hip-hop, um quarto de século. Como está a sensação de perceber esse marco de tempo? 

Crônica Mendes: Essa matemática é bem interessante, eu nunca tinha olhado por esse olhar de um quarto de um século, é impactante. Ao mesmo tempo, é muito prazeroso ver que a gente permanece resistente, fluindo, respirando acima de tudo. Que não fazemos parte da estatística que a gente denunciou e continua denunciando nas letras de rap.

São 25 anos profissionalmente, me vendo como um artista do hip-hop, uma pessoa que tem isso como profissão, além de oxigênio. Se você for pegar quando a gente se entrega pro hip-hop, de quando a gente se encontra com o rap, essa matemática é um pouco maior, eu acho que já vai para o número a mais que um quarto de século. São experiências, muitas vivências.

Eu costumo dizer pelos palcos, que a gente tem percorrido nessa turnê celebrando os 25 anos, que são 25 anos de várias salas de aulas, são 25 anos de muita periferia, grandes festivais, de vários olhares, de uma transformação imensa de visão de mundo, uma transformação dos olhares enquanto pessoa, enquanto ser humano e principalmente um olhar enquanto pessoa que busca uma transformação real, através da cultura, através da arte, através da maneira de pensar.

Eu me sinto muito vivo celebrando 25 anos de rap nacional na minha caminhada, muito vivo e sinto também que ainda tem muito o que fazer, aprendi muito, tenho propagado muitas coisas, tenho aprendido demais, e ainda existe muito o que se fazer.

Resgatando a sua trajetória,  é possível dizer que a Batalha da São Bento  é um marco inicial da tua trajetória? 

Não, porque eu  sou do interior de São Paulo, de Hortolândia, Jardim São Jorge. Então, eu não tive essa essa relação com a São Bento, da forma como os grandes pilares do rap nacional, do hip-hop tiveram. O rap me encontrou, eu me entreguei para o hip-hop em 1990 cravado. Então o pessoal já frequentava a São Bento muito antes.

Claro, pela linha de rap que eu acredito que eu pertenço, eu fui estudar, fui entender a história da São Bento, fui conhecer as pessoas que passaram por ali. E nessas pesquisas, nesse estudo, eu descobri que a São Bento é um dos gêneses do rap no Brasil, do hip-hop no Brasil.

Porque a gente tem muito disso também, outros pontos de nascimento, outros pontos de raiz do hip-hop no Brasil, em Brasíliaa gente tem na Bahia, a gente tem aqui para o nosso interior de São Paulo também. Então, eu não pertenço a essa classe da São Bento. Mas eu tenho muito orgulho de poder estudar todos esses artistas, de poder conhecer essa história e de poder trazer essa história para dentro do hip-hop que eu acredito, do rap que eu faço. Porque a gente tem esses elementos. Não tem como a gente fazer parte de uma árvore gigantesca que é o hip-hop sem conhecer as suas raízes, sem conhecer a profundidade da sua história. A São Bento faz parte dessa raiz, assim como outros movimentos na Bahia, em Brasília, enfim, o hip-hop de nível brasileiro.

Antes de você ter a sua carreira solo,  você começou com o grupo chamado A Família.

É bem interessante porque as pessoas sempre me associam diretamente ao grupo A Família, isso é muito importante porque eu sou um dos criadores do grupo, a gente criou em meados de 2001. Mas, na verdade, eu comecei profissionalmente no rap sendo uma das novas formações do grupo Gog, que é considerado poeta do rap nacional. 

Então o Gog ali em meados de 2000 para 2001, me transformou em um profissional do rap quando ele me chamou para fazer parte da sua nova formação. Eu trabalhei com o Gog do durante anos, um trabalho bem profundo. Não era só uma questão de shows, não era só uma questão de musicalidade, era uma questão de estudo. Daí que nasceu o meu pensamento de que muito mais importante do que ouvir e curtir o rap, é importante, estudar o rap.

E mais ou menos, no período de 2001 para 2002, nasce o Grupo A Família, criado por mim e por outros integrantes do interior de São Paulo, que mais tarde vem a ter o Gato Preto. O Gato Preto era o único integrante do grupo que era pertencente a São Paulo Capital, mesmo sendo baiano, de Ilhéus.

Em 2004, A Família lança um disco que traz para a história do do rap do interior de São Paulo e para a história do rap nacional, o Castelo de Madeira, o Brinquedo AssassinoFaveláfrica, traz esse teor um pouco mais musicalizado para dentro do rap, esse teor de uma uma música com mais poesia. Mesmo tendo o lado do gangsta rap com a música Brinquedo Assassino, tinha o lado da poesia da literatura marginal como a Faveláfrica. Com o Gato Preto, tinha o lado do rap de quebrada de rua, mas só que um pouco mais musicalizado que é o caso do Castelo de Madeira, que inclusive foi a música que levou a gente para o Brasil inteiro.

A gente lançou um segundo em 2008, com o Edi Rock do Racionais MC’s, e nós encerramos as nossas atividades enquanto grupo em 2012. O Grupo A Família não existe mais. O  Gato Preto infelizmente nos deixou, foi para outro plano, e o grupo acabou se desmembrando cada qual seguindo o seu caminho, cuidando da sua carreira.

Eu permaneço na música rap, eu permaneço na cultura rap. O rap me transformou em quem eu sou. A cultura hip-hop, a cultura da periferia me moldou, me forjou, me vestiu para que eu pudesse caminhar e chegar onde eu estou chegando.  Ela é a minha ferramenta, esse é meu oxigênio, esse meu impulsionamento para a vida, é o rap, é a cultura hip-hop. Eu continuo atuando, continuo vivendo, continuo respirando o hip-hop e o rap nacional.

E falando sobre o Gog, ele está na capital federal, no local onde o poder mais circula, e por lá ele fundou a Casa Gog.

O Gog furou a bolha do rap nacional, trazendo essa visão politizada para dentro do rap nacional. Sendo das periferias das cidades satélites de Brasília, ele foi um dos primeiros de lá que conseguiu furar a bolha e atingir um nível nacional com a sua música. E o Gog sempre teve esse teor político politizado dentro das letras dele. Como eu fiz parte dessa formação do grupo de 2000 até 2006, mais ou menos, a gente também bebeu muito dessa fonte do rap politizado, entendendo que a política é uma das principais ferramentas para as transformações sociais na periferia, fora da periferia e também na transformação nossa como ser humano.

O Gog é peça fundamental para a história do rap no Brasil, para a história do grupo A Família e consequentemente para minha história também. 

O rap é um dos gêneros mais politizados que a gente tem no mundo, com certeza, e no Brasil especialmente. A gente lê qualquer letra, seja do Racionais, do Gog, do Crônica, qualquer letra que a gente lê, a gente vê um impacto. Aquilo ali ensina muito mais que vários livros didáticos, mas não necessariamente é uma regra. A gente também vê que existem muitos rappers que, não necessariamente eles são sensibilizados com essa necessidade de uma luta coletiva, de união de classe, da importância de políticas públicas. E por mais que a gente tenha que criticar alguns aliados, a gente também tem que reconhecer algumas conquistas. Existe também esse papel de olhar para nova geração ou até pessoas que já tão na caminhada há mais tempo e dizer: “Olha, é muito importante que a gente denuncie, mas também que a gente saiba olhar entre nós e conseguir construir um discurso para conseguir enfrentar o sistema e garantir direitos para a população como um todo, não conquistas individuais de sucesso de um ou do outro.

Claro, sim, eu acredito que o rap é um dos principais elementos para fazer essa transformação na forma de pensar das pessoas. O rap tem isso em sua gênese, de provocar o pensamento. Talvez ele possa provocar um pensamento que vai surtir um efeito daqui a alguns anos. O rap não é um trabalho de imediato. Ele é algo que provoca, ele é algo que desperta e o despertar cada qual tem o seu tempo. Cada qual tem o seu tempo para despertar.

A gente vive hoje, uma geração que tem vários artistas provocando essa transformação do pensamento para que a gente possa ter um olhar diferenciado para uma luta, para que a gente possa entender, admitir, porque muitos ainda não admitem, que existe sim uma luta de classes no nosso país, no mundo como um todo. A gente tem nomes como DjongaEmicida, que estão engajados nessa questão, que busca inserir nas suas letras os conteúdos que trazem essa reflexão, que traz essa motivação e se despertar, essa provocação também. 

Só que a gente também tem várias partes do rap que falam de outros temas, que trazem outros temas que são relevantes e importantes para nós também, A periferia é um mar, é um caldeirão cultural de de temas infindáveis. A gente tem várias possibilidades de vivências dentro da periferia. O que eu acredito que a gente não pode deixar jamais, o rap não pode deixar jamais, é deixar morrer o seu lado social, o seu lado crítico, o seu lado politizado. 

Se não tem, que desperte, porque o rap não é simplesmente uma música, ele não é simplesmente algo que foi feito para celebrar corpos. O rap não foi feito para celebrar corpo, o rap não foi feito para celebrar vestimenta. O rap nasceu de uma necessidade de ter voz, uma necessidade de buscar melhorias. O rap nasceu de uma luta. Ele não veio da necessidade de exibir o seu corpo, de exibir pensamentos totalmente superficiais. O rap não é para ser fluxo, o rap é para ser propósito.

Tem muitos artistas hoje que não conseguem enxergar essa importância do rap como ferramenta de transformação social, como despertar de um pensamento politizado, para que a gente tenha cada vez mais uma periferia politizada para que a gente tenha cada vez mais uma periferia viva acima de tudo. A gente tem muito que denunciar. A gente tem muita vida para celebrar também. Só que eu não posso acreditar que uma vitória minha isolada significa a vitória da periferia como um todo. 

Aí a gente cai na onda de não aceitar o conceito de favela venceu. A gente consegue entender que ainda tem muito que se fazer para que a periferia possa de fato vencer, para que a favela possa de fato elevar o nível da sua existência. 

Então, a gente precisa sim, abordar dentro das letras de rap os temas da política. A gente precisa sim abordar dentro dos temas de rap a nossa luta, mas a gente também pode falar dos nossos amores, a gente pode falar das nossas dores sem ser dores, mas a gente precisa entender acima de tudo, que o artista tem a obrigação de refletir na sua arte aquilo que está vivendo. Não o artista individual, mas aquilo que a sociedade está vivendo. Ele tem a obrigação de refletir isso na sua arte. Se a gente deixar de refletir isso na nossa arte, a arte morre. 

Você  teme que agora, em 2026, a gente possa ter pessoas completamente fora de algum circuito e se apropriem de um discurso da periferia para tentar enganar votos, como Pablo Marçal tentou fazer em 2024? 

Com certeza,  por isso que a gente tem a missão de despertar a mente das pessoas, de preparar a mente das pessoas, preparar as pessoas para que elas não sejam cooptadas. Principalmente quem faz arte. É triste a gente ver a quantidade de artistas cooptados para esse lado. Se  apropriando de discursos, se apropriando de vivências que não são as deles. Muito antes do Pablo Marçal tivemos o próprio Dória, ‘Dória é o João do povo’, nunca foi e nunca será. 

O Marçal era “o mano”, o cara que queria se vestir, meter uns bonés,  a se apropriar das vestimentas da periferia, do visual. Essas pessoas surgem do nada e consegue cooptar um monte de gente porque as pessoas estão se sentindo sozinhas. As pessoas na base elas estão se sentindo sozinhas, elas estão se sentindo abandonadas. A maioria das pessoas não conseguem enxergar naqueles discursos verborrágicos que mais distancia a gente do povo do que aproxima. Muitos dos nossos estão à deriva. E o primeiro, a primeira ilha que aparecer, a primeira embarcação que aparecer oferecendo uma corda, eles vão segurar e vão ir junto, acreditando que estão fazendo o melhor para si. Ainda assim, se sentindo sozinha, a visão deles ainda é muito individualista, Não pensa de forma coletiva. Do mesmo jeito que eu posso estar numa amargura, existem outras pessoas que estão na mesma situação. Então a gente precisa  dialogar com essas pessoas. A gente precisa encontrar essas pessoas e fazer com que elas entendam que elas não estão sozinhas, seja através da arte, seja através da presença. Hoje a gente vive um momento de ausência muito grande nas periferias. Em vários campos, em vários sentidos, essa ausência se faz presente. É interessante. Uma ausência que se faz presente. Hoje a periferia passa por esse momento. Então, para muitos dos nossos serem cooptados, é muito fácil.

Mas eu acredito que a gente tem um longo papel, uma longa missão para poder trocar a ideia com essas pessoas, se aproximar delas através da arte, através da própria presença. 

A gente teve um episódio muito interessante, nesses episódios do mal que a gente passou nesses últimos tempos, que é o surgimento de rappers de direita. E é um negócio totalmente contraditório. Eu não consigo conceber a a ideia de que um rap pode ser de direita, eu não consigo entender isso. E nós não estamos falando de partido, nós estamos falando de posicionamento de visão de mundo, de visão coletiva. A gente precisa eliminar esse mal, e a melhor maneira de combater esse mal é com informação, com conhecimento, com presença, com uma cultura cada vez mais viva e não só com discursos verborrágicos ou com discursos que distanciam a gente da nossa base. 

E as redes sociais, o algoritmo, eles são o verdadeiro inimigo nessa hora. É muito difícil que a gente com os nossos discursos de promover a cultura consiga atingir na mesma energia que essas pessoas com esses discursos verborrágicos como está trazendo de ódio, de violência.

Exatamente isso, tem a luta contra o algoritmo, uma luta contra a inteligência artificial, a gente precisa prevalecer a inteligência humana, a inteligência emocional. O que mais se propaga na rede? É o ódio, discurso de ódio, sofrimento.As pessoas preferem filmar o sofrimento do que acabar com ele, do que estender a mão. 

Nem todo mundo quer  ver numa rede social um pensamento positivo, um pensamento crítico que te faça pensar, refletir sobre, que você possa ler e te trazer umas reflexões.

As pessoas preferem esses vídeos curtos, rasos, mas que são bem direcionados na ferida. É uma luta gigantesca, por questão de ano eleitoral, e também por questão de formação do do do nosso presente e do futuro que tem aí.

O número de crianças doente mentalmente pelo uso excessivo de celulares e de telas é gigantesco. A nossa luta contra, entre aspas, contra a IA, contra a internet, ela é bem mais ampla e é um debate que a gente precisa aprofundar também.

Fonte: Brasil De Fato / Editado por: Luís Indriunas

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