Por Antonio Cavallero
O eloquente silêncio de Helder Barbalho e a escolha do vice

Há momentos na política em que o silêncio fala mais alto que os discursos. A convenção do MDB na Arena Guilherme Paraense foi um espetáculo de força. Doze mil pessoas, lideranças de todos os matizes, incluindo o presidente da Alepa, Chicão, do União Brasil e a governadora Hana Ghassan, consagrada ao lado de seu padrinho político, Helder Barbalho. Faltou, no entanto, exatamente o que todos esperavam; o nome do vice.
Esse vazio não é falha de logística partidária. É termômetro de uma disputa fratricida que envolve a miríade de tendências do PT, o agronegócio, o poder evangélico e os interesses de uma dinastia política local. Vale dissecar friamente as forças em jogo.
O empate técnico transforma o vice em trunfo
Pesquisas de opinião apontam empate técnico entre Hana Ghassan e o candidato da oposição, Dr. Daniel Santos. Em margem tão estreita, o vice deixa de ser figura protocolar e passa a valer votos preciosos na reta final. Hana vem de um espectro urbano, técnico, ligado à agenda do desenvolvimento e precisa de uma ponte para o interior, para as periferias, para o agro ou, sobretudo, para a bancada evangélica, decisiva nas últimas eleições estaduais.
É nesse vácuo que despontam três nomes, cada um representando uma aposta diametralmente oposta: Dirceu Ten Caten, Josué Paiva e Joel Lobato.
Ten Caten e o projeto familiar do PT
A força do deputado petista Dirceu Ten Caten não reside em peso eleitoral específico do PT ou em projeção pessoal avantajada, mas exclusivamente em uma suposta pressão de Brasília, não em densidade política no Pará. Suas chances são baixas, salvo intervenção direta e impositiva de Lula sobre Helder algo improvável.
A narrativa do PT local, capitaneada pelo senador Beto Faro, é a do alinhamento nacional entre Lula e Helder. A leitura de bastidores é mais prosaica: Beto Faro não quer um vice para Hana, quer um cabo eleitoral para sua própria dinastia. A insistência em Ten Caten serve para tirá-lo da disputa por uma vaga de deputado federal que interessa à esposa, Dilvanda Faro, já deputada, e ao filho, Yuri Faro, pré-candidato. É projeto de clã, não de governabilidade.
O argumento da densidade eleitoral, aliás, é falácia. O PT governa um único dos 144 municípios paraenses, teve desempenho pífio nas últimas proporcionais e carrega uma imagem desgastada no estado, especialmente após a gestão de Faro no diretório. Colocar Ten Caten na chapa não agregaria votos e produziria atrito com forças que efetivamente têm capilaridade.
O que o mantém vivo é o fator Lula. O l presidente precisa de palanques fortes no Norte e Hana é sua principal aliada no Pará, mas ter ou não ter o PT na chapa dificilmente produziria algum ruído nessa relação. O MDB nacional, sob Baleia Rossi, lavou as mãos e deu carta branca a Helder. Na hora do vamos ver, a pressão do Planalto pode não vencer a lógica local.
O simbolismo do Mangueirinho é eloquente. Desde novembro de 2024 o PT lançou e referendou Ten Caten, chegou a ameaçar candidatura própria e viu Beto e Dilvanda Faro fazendo cara de paisagem enquanto o nome de seu candidato era simplesmente ignorado. O partido que já governou a capital por dois mandatos e o estado uma vez, perdeu o protagonismo e virou refém da decisão alheia.
Josué Paiva e o peso do púlpito
A reunião repentina da Comieadepa, comissão da Assembleia de Deus no Pará, em 27 de julho, foi o sinal de que o jogo virou. O segmento evangélico não está pedindo espaço na chapa, está exigindo; e com argumentos de sobra.
As chances do pastor e deputado estadual Josué Paiva são altas; hoje é o favorito no grupo de Helder. A matemática ajuda. Os evangélicos representam fatia gigantesca do eleitorado, sobretudo no nordeste e sudeste paraenses e nas periferias de Belém e Ananindeua — território que Hana vem cultivando com presença em cultos e eventos.
Paiva não é nome qualquer. Tem mandato, trânsito na Assembleia Legislativa e é interlocutor direto da maior igreja do estado. Sua indicação fidelizaria o voto, garantindo não apenas apoio, mas engajamento ativo da máquina evangélica na campanha. Neutralizaria também o avanço de Dr. Daniel sobre esse nicho e daria à chapa capilaridade geográfica em cidades onde MDB e PT são fracos.
Nos corredores do Palácio dos Despachos, a tese é uma só, a Comieadepa é força organizada, poderosa e leal. Se preterida, o risco de debandada é real — e catastrófico.
Joel Lobato e o lobby do agro
Respaldado por Fiepa e Faepa, Joel Lobato encarna o lobby econômico mais tradicional do estado. Suas chances são médias, com forte possibilidade de compensação em outra esfera, como uma secretaria.
O agronegócio é motor da economia paraense, e gestos como a criação de uma delegacia especializada em roubo de gado foram acenos claros de Hana a um setor que se sente desamparado. Indicar Lobato seria reconhecimento a esse poderio. Ocorre que o agro não é bloco monolítico. Seus líderes têm influência, mas não a verticalidade de uma igreja. E já está, em sua maioria, alinhado ao governo por interesse econômico e acesso a crédito. Mesmo sem a vaga, dificilmente migrará para a oposição, porque isso ameaçaria financiamentos e projetos.
Lobato é nome para agradar a base, não para ganhar votos. Aposta conservadora, menos arriscada e também menos recompensadora.
Helder, o engenheiro de alianças
Nenhum prognóstico se sustenta sem ler o perfil de Helder Barbalho. Ele não age por impulso: é engenheiro de alianças, e sabe que a peça mais valiosa é a que traz mais votos com menos desgaste. Historicamente prioriza capilaridade e conexão popular sobre alianças de gabinete. E sabe que o PT está rachado, que Beto Faro age por interesse próprio e que Ten Caten não resolve problema eleitoral algum.
Seu trunfo é driblar a pressão nacional sem rompimento. Dirá a Lula que tentou, mas que a força dos evangélicos e o risco de perda de votos inviabilizaram o petista. Em troca, entrega o palanque paraense — que já está garantido, com ou sem o PT no segundo degrau.
Adiar a decisão para 15 de agosto, prazo final do TSE, não é acaso. É tática: esfria os ânimos, faz o PT engolir a derrota com menos alarde, testa até onde evangélicos e agro estão dispostos a ir e abre espaço para compensações — liderança de bancada, cargos, máquina.
O prognóstico racional
A análise fria aponta um nome: Josué Paiva.
Por eficiência eleitoral, é o único que oferece salto quantificável nas pesquisas. Por custo-benefício, agrada a um bloco coeso, enquanto Ten Caten agradaria apenas a um grupo familiar e desagradaria a dois grandes blocos. O preço de contrariar a Comieadepa é muito maior do que o de irritar Beto Faro. E Lula é pragmático. Quer vencer no Pará e apoiará, mesmo que fosse a contragosto, a chapa vencedora.
O cenário provável é Hana e Josué Paiva na majoritária; Joel Lobato remediado com uma secretaria de peso; e Ten Caten como grande derrotado, deslocado da disputa proporcional pela promessa que Beto Faro não pôde cumprir.
A convenção foi apenas o ensaio. Em 15 de agosto, o envelope deve sacramentar a aliança entre o palácio e o púlpito, e o recado ficará claro: no Pará, o protagonismo é do MDB de Helder Barbalho — não do Planalto.
Antônio Cavallero é sociólogo e analista político





