Homenageada pela campeã Mocidade Alegre, Léa, primeira brasileira a ser indicada a melhor atriz em Cannes, será tema de documentário a ser lançado este ano
Ditadura interrompeu Léa Garcia e movimento cultural de 1950 que construía o Brasil, diz Joel Zito Araújo

A atriz Léa Garcia foi a grande homenageada da campeã do Carnaval 2026 do Sambódromo em São Paulo, a escola Mocidade Alegre, com o enredo: ‘Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra’.
Mas essa não será a única homenagem a atriz este ano, um documentário sobre sua vida e obra, dirigido pelo cineasta Joel Zito Araújo e produzido pelo filho da atriz, Marcelo Garcia, tem previsão de lançamento para dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra no Brasil.
Joel Zito relembrou, no Conversa Bem Viver, o protagonismo de Léa Garcia em um movimento efervescente nos anos 50 que construía um Brasil de plenitude, que foi interrompido pelo golpe civil-militar de 1964.
A também diretora teatral, com trajetória iniciada no Teatro Experimental do Negro (TEN), fez carreira na teledramaturgia e no cinema e foi a primeira brasileira a ser indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes, em 1957, por seu papel como Serafina no filme Orfeu Negro.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato: Tem um documentário que vai sair sobre a trajetória [da Léa Garcia] e quem conversa com a gente é o autor, o responsável por essa obra, Joel Zito Araújo, cineasta e pesquisador do cinema nacional.
Joel Zito Araújo: É sempre um prazer estar aqui com você e na verdade, eu estou entrando no segundo corte do documentário sobre a Léa, e estou entrando em uma fase de começar a negociar direitos de imagens. Porque tem muito material de arquivo. Você sabe que os documentários de arquivos têm essa pedra no nosso calcanhar de todo documentarista brasileiro, que é o custo dos arquivos
Infelizmente, o segmento documentário é o primo pobre do cinema brasileiro, mas é um dos que mais pagam. Nós pagamos preços altíssimos por material de arquivo, principalmente de uma figura como Léa Garcia, que começou com uma carreira internacional incrível. Seu primeiro grande sucesso, foi um sucesso mundial, que foi o Orfeu Negro, ela disputou o prêmio de melhor atriz em Cannes. Então, não é uma negociação de direito só em solo nacional, é uma negociação de direito também no exterior, que é caro e trabalhoso, é um jogo para a gente conseguir viabilizar o maior número de imagens ricas e interessantes possíveis para um filme.
Vamos falar um pouquinho sobre o desfile [da escola Mocidade Alegre], ‘Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra’. Você já sabia que ela ia ser homenageada, foi consultado de alguma maneira?
Eu já sabia, desde o ano passado, quando a Mocidade escolheu ela como tema desse ano, eu já tinha essa informação. Infelizmente, eu não estou no Brasil, não passei o Carnaval no Brasil, então eu não pude participar desta homenagem, mas eu acho que é uma homenagem ainda muito necessária. A Léa teve uma carreira muito rica, foi uma figura fundamental na história do nosso audiovisual, do cinema, da televisão e do teatro. E só nos últimos 10 anos de vida dela que ela começou a ter o reconhecimento que ela devia ter tido a vida inteira. Eu fico não só feliz, que a Mocidade Alegre tenha escolhido a Léa como tema, como tem ganho o Carnaval de São Paulo, é uma dupla homenagem. Isso ressalta ainda mais a importância da Léa.
Eu queria comentar uma coisa aqui com você. Nós estamos vivendo, nos últimos seis meses, a gente viveu o fechamento de um ciclo muito interessante da história cultural do Brasil, que foi o das grandes figuras negras que fizeram os anos 50. Então, a morte do Haroldo Costa, que foi em dezembro, que era um grande carnavalesco, sempre convidado como um comentarista no desfile da da da das escolas de samba do Rio de Janeiro, no Sambódromo. Além do falecimento da Léa há dois anos no Festival de Gramado, praticamente levou um grupo de personagens, de protagonistas negros importantes na nossa história, que foram essas pessoas que tiveram um enorme protagonismo nos anos 50 que eu acho que ainda não foi devidamente entendido.
As pessoas homenagearam muito o Abdias [Nascimento] no início, depois a Ruth de Souza, mas os anos 50 foi um período muito fundamental para o Brasil. Foi o período do surgimento da Bossa Nova, o período que explodiu a arquitetura moderna brasileira, a arquitetura modernista, e essas personagem que a gente está se referindo agora, Léa, Ruth, Haroldo e Abdias, eles estavam à frente. Não só eles como tinha outros personagens interessantes também no período, como a Mercedes Batista e outros. Eles tiveram protagonismo cultural muito grande no Brasil naquele período e de muito diálogo com todos esses outros movimentos. A coisa mais simbólica de tudo isso foi quando, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, foi encenado o Orfeu da Conceição e o cenógrafo da peça era Oscar Niemeyer, a música da peça era do Tom Jobim e o texto da peça era do Vinícius de Moraes.
Então, esse grupo teve um diálogo muito grande com outras figuras fundamentais da cultura brasileira como o Nelson Rodrigues, que era muito amigo do Abdias Nascimento, que escreveu uma peça para o Anjo Negro. Então essas figuras se foram, mas eu acho que a gente ainda não esgotou e não trouxe para o presente, o que foi o Brasil nos anos 50. O Brasil nos anos 50 foi uma década de ouro. Que depois vem uma sequência de derrotas nos anos 60, com o golpe de 64 e por aí afora, Essa coisa só vai ser retornada, do meu ponto de vista, com o primeiro governo Lula, que o Brasil começa a viver uma nova plenitude, não só democrática, – desde a Constituinte, desde os governos anteriores, a gente já vivia uma uma plenitude democrática- mas, um período de ouro em que, convergem questões econômicas, culturais, um período de crescimento e de explosão do cinema brasileiro também.
A gente teve a oportunidade de conversar com Haroldo Costa ano passado, no início do ano, também nesse período carnavalesco e período do Oscar. Então retomamos como foi a indicação do Orfeu Negro, para Cannes e ele lembrou que, além desses personagens todos que tu trouxe, Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, mas quem também participou dessa produção foi o Jorge Amado.
Eu falo isso com muita ênfase, eu tenho estudado muito os anos 50 e tenho outros projetos cinematográficos sobre os anos 50, me empolgo muito quando eu percebo essa constelação astral pro Brasil nos anos 50, o quanto foi rico o Brasil, o quanto de criatividade que rolou no Brasil. Sempre dá um desejo de a gente ter vivido essa época. É a única década do passado, que eu queria ter vivido na minha maturidade, na minha vida adulta, que eu acho é uma década que eu perdi. Eu nasci em novembro de 54, os anos 50 para mim foi vivido ainda no seio familiar, não foi vivido na plenitude de tudo o que aconteceu em termos culturais e sociais no Brasil naquele período.
É muito importante tudo isso que você está trazendo. A gente tem aqui no Brasil de Fato, uma série documental que a gente lançou no marco dos 60 anos do golpe, e o nome do documentário é justamente Futuro Interrompido, porque fala bastante desse Brasil da década de 50, início dos anos 60, que era muito promissor por tudo isso que você está trazendo nesse aspecto cultural. Também quando a gente olha para o Nordeste, era um momento que Paulo Freire estava começando a deslanchar, com a Pedagogia do Oprimido. Estávamos realmente revolucionando o país em várias questões, como as Ligas Camponesas pelo acesso à terra, e, de repente, veio a ditadura militar e ceifou esse país que estava começando a se identificar como próprio. Vou aproveitar que a gente está fazendo esse corte de período, para te provocar sobre o seu documentário, A Negação do Brasil, fundamental para se entender a história do Brasil, lançado em 2000, que faz uma retrospectiva, principalmente das telenovelas no Brasil e mostra os papéis aos quais atores e atrizes negros eram submetidos. Te parece, que neste período entre o lançamento de Negação do Brasil e os dias de hoje, a gente conseguiu avançar?
Sim, seguramente as novelas da Globo sim, dos outros canais, não. Eu não vejo essa quebra de paradigma na Record, não vejo essa quebra de paradigma no que a Rede Bandeirantes ou o SBT tem feito de novelas no período. Mas a Rede Globo sim, a Rede Globo absorveu essa crítica e tentou avançar.
Estamos longe ainda de uma visão de um país plural, de um país da diversidade racial, de um país orgulhoso da sua composição múltipla e diversa do ponto de vista étnico e nem tampouco de um país que abraça, como um todo, a luta contra o racismo. Eu acho que a gente vive hoje, do ponto de vista social, um embate muito grande entre forças conservadoras e forças progressista. As forças conservadoras lutam ardentemente para restabelecer o passado, o conservadorismo, o racismo do passado. As forças progressistas começam a sair de algumas visões equivocadas, que surgiram no seio da esquerda, da predominância de questão de classe sobre raça, do não reconhecimento do racismo, uma questão fundamental, a ilusão de que o fim das relações de classe poderia estabelecer uma democracia social plena. Mas, de certa forma, no campo progressista, no campo humanitário, no campo de esquerda, essa compreensão do racismo estrutural cresceu muito na na sociedade brasileira. Isso reflete na produção da emissora mais importante no campo da telenovela. Então, acho que tem transformações positivas nisso.
Agora, mesmo dentro dessa emissora hegemônica, eu vejo o tempo inteiro a manutenção de ideias antigas, como, por exemplo, uma certa persistência da estética do branqueamento, uma certa existência, da ideia de que as pessoas mais arianas, do ponto de vista das suas características estéticas, com cabelo loiro com os olhos claros, são naturalmente mais bonitos sobre os outros, mais negros. Então, acho que essa coisa não se quebrou. A predominância de uma estética do branqueamento, de uma valorização do arianismo, ainda está muito presente na sociedade. Nós podemos ver, inclusive, na estética feminina, a quantidade de mulheres que alisam o cabelo, que pintam o cabelo de loiro, essa coisa ainda é muito forte na sociedade brasileira, eu diria na América Latina como um todo.
Eu acho que o cinema avançou mais. Acho o cinema muito mais diverso, ele modernizou muito mais na compreensão de Brasil, na quebra desses paradigmas equivocados que eu comentei aqui.
O senhor estava muito bem nomeando esses anos 50, que foi justamente o apogeu do TEN, do Teatro Experimental do Negro, que Léa foi uma das protagonistas junto com o marido dela na época, o Abdias Nascimento.
Eles foram um casal, foram apaixonados, tiveram dois filhos, os dois primeiros filhos da Léa. Ela teve três filhos, os dois primeiros foram com Abdias Nascimento.
Léa teve dois grandes momentos, do ponto de vista do impacto do trabalho dela como atriz, que primeiro foi com Orfeu Negro, nos anos 50 e depois foi como vilã em uma telenovela nos anos 70, fazendo a escrava Má Rosa em na telenovela Escrava Isaura. E eu creio, pelo que eu pesquisei, que continua sendo a telenovela brasileira mais vendida no exterior. Foi sucesso, inclusive, na China. Foi sucesso em todos os continentes, vendeu para muito mais de 100 países. A Léa marcou com o seu magnetismo, com seu carisma, a forma que ela imprimiu a insubordinação, a rebeldia naquela personagem de vilã.
No entanto, apesar desses dois grandes sucessos, eu acho que a Léa sofreu o mesmo que praticamente todos os atores e atrizes negras daquele período, um certo emparedamento social. Ela e Ruth parece que só cabiam em papéis tradicionais de negras, ou seja, como escravas, como empregada doméstica, como subalternas. O cinema e a televisão brasileira perderam muito com esse emparedamento e elas, obviamente, perderam muito .
Eu acho que ambas só começaram a ter mais diversidade de papéis para fazer as pessoas comuns, as mães de família, a partir do século 21. Eu fico feliz aí, voltando à Mocidade [Alegre], eu vi cenas do desfile, eu vi as atrizes e as figuras públicas que, de certa forma, interpretaram a Léa e eu acho muito bonito essa quebra de paradigma, trazer a Léa como uma deusa negra, uma figura muito forte. Foi muito bonito ver isso e reafirmar no nosso imaginário, essa beleza da Léa, essa beleza não só física, mas essa beleza humana da Léa, essa beleza cultural da Léa. Ela era uma pessoa muito culta também, ela queria até ser escritora, acabou não sendo escritora, Ela tinha muita cultura geral, não só cultura dramatúrgica. Embora fosse uma pessoa muito modesta, uma pessoa que não gostava de se mostrar. Mas, à medida que você começava a ter a convivência com a Léa, você ficava impressionado. E por conta disso, ela foi não somente uma grande atriz no teatro, na televisão e no cinema, mas também foi uma grande diretora de teatro.
É só lamentável que a gente tenha demorado tanto para reconhecer todo esse sucesso, mas que bom que felizmente a atual geração está conseguindo pagar essa dívida histórica que a gente tem minimamente, conseguindo recontar do jeito que ela merece, Léa Garcia.
Fonte: Brasil De Fato.





