Guterres: insistir em combustíveis fósseis é “sabotar economias” e energia renovável já é mais rentável

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas apresentou dados de novo relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis que demonstram a vantagem econômica do uso de energias renováveis sobre as não renováveis

m discurso, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que os países que continuam apostando nos combustíveis fósseis como fonte energética principal estão sabotando suas economias. O chefe da ONU destacou o avanço dos países no investimento em energias renováveis e apresentou novo relatório que demonstra a vantagem competitiva deste recurso em termos de custo, acesso e empregabilidade frente às não renováveis, em pronunciamento, nesta terça-feira (22/7).

Ao citar dados do novo relatório da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA), Guterres ressaltou que US$ 2 trilhões foram investidos em energia limpa em todo o planeta, no ano passado, o que significa US$ 800 milhões a mais que o valor aplicado em combustíveis fósseis no mesmo período. Trata-se de um aumento de 70% em 10 anos, desde a instituição do Acordo de Paris.

Ainda conforme o documento, atualmente, a energia solar é 41% mais barata que fontes não renováveis, enquanto a energia eólica offshore é 53% mais barata. Além disso, o relatório aponta que mais de 90% das fontes renováveis no mundo produziram eletricidade com custo inferior à alternativa fóssil mais barata em 2024. “Isso não é só uma mudança de fonte de energia é uma mudança de possibilidades, de nos reconciliarmos com o clima”, frisou o secretário-geral da ONU.

Diante da maior viabilidade econômica comprovada pelo levantamento, Guterres fez um alerta às nações. “Os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger suas economias, estão a sabotá-las, aumentando os custos, enfraquecendo a competitividade, ficando presos a ativos encalhados e perdendo a maior oportunidade econômica do século 21”, enfatizou.

Ainda conforme o secretário-geral, as energias renováveis são a base da segurança e da soberania energéticas, enquanto a maior ameaça a estes princípios são os combustíveis fósseis. “Estes deixam as economias e as populações à mercê de choques de preços, de interrupções de fornecimento e da turbulência geopolítica. Basta olhar para a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma guerra na Europa desencadeou uma crise energética global, os preços do petróleo e do gás disparam. As faturas de eletricidade e de alimento seguiram o mesmo caminho”, lembrou.

Avanços

As energias renováveis já quase igualam os combustíveis fósseis na capacidade energética global instalada, conforme o estudo apresentado por Guterres. Segundo o líder da ONU, o futuro das energias limpas já não é uma promessa, é um fato. “Isto é apenas o começo. No ano passado, quase toda a nova capacidade energética construída veio de fontes renováveis. Todos os continentes da Terra adicionaram mais capacidade de fontes renováveis do que combustíveis fósseis”, relatou.

O levantamento aponta ainda que, por décadas, as emissões e o crescimento econômico aumentaram lado a lado. Entretanto, em muitas economias avançadas, as emissões atingiram o pico, mas o crescimento continua. Só em 2023, os setores das energias limpas impulsionaram 10% do crescimento do PIB mundial. Na Índia o avanço foi de 5%; nos Estados Unidos, 6%; na China, um líder na transição energética, 20%; e na União Europeia, quase 33%.

Além disso, os empregos no setor das energias limpas já ultrapassam os do setor dos combustíveis fósseis, empregando quase 35 milhões de pessoas no mundo. Guterres chamou atenção para o fato de que o estado do Texas, o coração da indústria de combustíveis fósseis dos Estados Unidos, é líder no país em energias renováveis. “Por que? Porque faz sentido economicamente”, explicou.

Desafios

Os combustíveis fósseis ainda se beneficiam de uma vantagem de 9 para 1 em subsídios ao consumo a nível global, segundo o relatório. “Uma distorção do mercado. Se somarmos os incalculáveis custos dos danos climáticos para as pessoas e para o planeta, a distorção é ainda maior”, avaliou Guterres.

O secretário-geral também advertiu sobre a necessidade de fazer a transição energética com rapidez, diante da crise climática que já devastou vidas e meios de subsistência, eliminou mais de 100% do PIB de estados insulares, e, nos Estados Unidos, estão disparando os prêmios dos seguros. “O limite de 1,5 grau no aquecimento global corre um perigo sem precedentes. Para o manter ao nosso alcance, temos de acelerar drasticamente a redução das emissões e a expansão da transição para a energia limpa, com a capacidade de produção a crescer, os preços a cair e a COP30 a aproximar-se rapidamente”, completou.

Ele enumerou seis frentes que precisam ser enfrentadas neste sentido:

  1. apresentação de novos planos climáticos nacionais (NDCs) antes da COP30;
  2. construir sistemas energéticos do século 21, investindo no armazenamento de energia limpa;
  3. responder de forma sustentável à crescente procura energética mundial, com o setor de tecnologia puxando esta mudança;
  4. consolidar uma transição energética justa com equidade, dignidade e oportunidade para todos;
  5. tornar o comércio e o investimento motores da transição; e
  6. reformar a arquitetura financeira internacional para viabilizar o fluxo de investimentos para energias renováveis.

Guterres convidou os líderes nacionais a apresentarem a NDC, Contribuição Nacionalmente Determinada (do inglês, Nationally Determined Contribution) em um evento em setembro, durante a Semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU.

Saiba mais

O discurso especial do secretário-geral, intitulado “Um Momento de Oportunidade: Impulsionando a Nova Era da Energia”, foi acompanhado presencialmente por autoridades internacionais na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque (EUA), incluindo o presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, e foi transmitido pela UN Web TV. O pronunciamento é uma continuação de sua fala do ano passado, “Momento da Verdade”.

O relatório técnico especial apresentado foi preparado pela equipe de Ação Climática da ONU com o apoio de agências, fundos e programas da ONU e instituições de pesquisa internacionais, reunindo as evidências científicas mais recentes sobre avanços, oportunidades e benefícios de uma nova economia baseada na energia limpa.

(Publicado no Site Co30.br)

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